domingo, 5 de junho de 2011

CIÚME (TEXTO FINAL)

Segue, abaixo, o texto final da esquete "Ciúme", conforme opção de final escolhida pela Lili (Lilian Luchesi), dentre as duas opções de final apresentadas (e adaptadas às especificidades da peça "Além de Nelson. A vida como ela foi. A vida como ela é"), para a finalidade de contribuição com este Blog.


CIÚME


Autor: Elton Rocha


Personagens:

Clarice
Agenor
Dalila
Durval

Sinopse:

Clarice é uma mulher que, apesar de gozar de uma boa vida material, proporcionada por seu marido Agenor (um jornalista conceituado), vive insatisfeita por seu marido não demonstram sentir qualquer ciúme por ela. A melhor amiga de Clarice é Dalila, uma solteirona convicta que optou por manter-se donzela, por considerar os homens em geral uns calhordas. Sem mais suportar a completa falta de ciúme de Agenor, Clarice resolve ceder às investidas de Durval, um colega de trabalho de seu marido e que vive a lhe cortejar.

Esquete:

CENA I:

(lanchonete onde Clarice e Dalila conversam)

CLARICE: Não tem jeito Dalila, o Agenor não demonstra nenhum ciúme de mim. Acho que ele não me ama mais!

DALILA: O que é isso amiga, vai saber é apenas uma fase. Por certo ele confia tanto em ti, que nem liga se algum outro homem te lança olhares de desejo.

CLARICE: Pois pra mim quem ama tem ciúme da pessoa amada. Tem alguma coisa errada. O Agenor deve ter arranjado uma amante no trabalho ou se lá onde!

DALILA: Vai com calma Clarice. Teu marido faz tudo pra você. Te dá do bom e do melhor. Não põe tudo a perder por causa dessa tua cisma.

CLARICE: Bom, disso eu não posso reclamar. Ah, mas que pelo menos um “tiquinho” assim de ciúme tem que ter na relação, isso tem que ter sim!

DALILA: E aquele sujeito que andava te cortejando, ainda continua no teu pé?

CLARICE: Menina, nem te conto. Ele agora deu pra dizer uns versinhos quando me encontra!

DALILA: Sujeitinho cara de pau esse, heim! Ele não sabe que tu és casada?

CLARICE: Sabe sim. E o que é pior, ele é colega de trabalho do meu marido!

DALILA: O que? O sujeito trabalha com o Agenor e fica dando em cima de ti? Mas como essa “homaiada” é mesmo sem vergonha! É por isso que eu jurei não querer saber de homem nenhum na minha vida. São todos uns calhordas. O que era fiel, com certeza nasceu morto!

CLARICE: Ué, mas você não acabou de insinuar que o Agenor é um santo?

DALILA: Ah, mas teu marido é uma exceção. Aliás, o único homem que eu conheço que não vive pensando somente com a “cabeça de baixo”!

CLARICE: Ora bolas, tu falando assim, quem vai ficar com ciúme sou eu!

DALILA: Ih, lá vens tu com essa estória de ciúme de novo? Mas, voltando ao safado do colega de trabalho do teu marido, como é mesmo o nome do indivíduo?

CLARICE: Durval. E olha, até que ele é bem apanhado viu. Mas eu não quero nada com ele não. Já não mandei ele ir “passear”, pra ver se o Agenor demonstra ciúme por ter um outro homem me cortejando. Mas até agora ó, (desconsolada) o Agenor não tá nem aí!

DALILA: Mas tu não disseste ao Agenor que esse tal Durval tá te paquerando, disseste?

CLARICE: Não mencionei o nome do Durval! Só disse que tem um homem me cortejando, mas que não sei quem é. Tenho medo que o Agenor faça uma besteira contra o sujeito e vá parar na cadeia. (com ar de sonhadora) Apesar de que isso seria bastante romântico. (suspira) Uma verdadeira prova de amor.

DALILA: O quê? Teu marido ir para a prisão por ter matado alguém por ciúme de você? Estas maluca, Clarice? Mandas esse tal Durval pras “cucuias”, isto sim!


CENA II:

(via pública. Clarice caminha na calçada, já próxima de sua residência, quando é abordada por Durval, que a seguia pela rua)

DURVAL: “Ó pequena lindíssima. Musa da minha inspiração. Se eu pudesse te cobria de ouro. Só pra ter teu coração”.

CLARICE: (fingindo irritação) Já te disse que não sou mulher de indecências. Sabes que sou casada, não sabes?

DURVAL: Sei, com aquela lesma do Agenor, que não dá a atenção devida a uma “Deusa” como tu!

CLARICE: Não falas assim do meu marido não! Se ele te ouve falando assim, te parte a cara!

DURVAL: (dá uma gargalhada) Aquele lá, duvido. Não é homem pra tanto.

CLARICE: (chegando na porta de sua casa e se fazendo de irada) Tu és mesmo muito atrevido, heim! Pois fiques sabendo que, qualquer dia desses, meu marido vai te dar um tiro na cara. Ele só ainda não fez isso, pois eu ainda não lhe contei que tu és o autor desses gracejos, por receio de que ele te mate e vá parar atrás das grades. Pois saibas que ele morre de ciúme de mim! (e adentra em sua casa).

DURVAL: (sorridente) Tá no papo! Essa tá no papo!


CENA III:

(interior da casa de Clarice e Agenor. Clarice entra e encontra Agenor escrevendo em sua máquina de datilografar)

CLARICE: Oi amor (beija Agenor no rosto). Sentiu saudades de mim?

AGENOR: (indiferente) Senti, Clarice, senti.

CLARICE: Isso lá é maneira de recepcionar a sua linda esposa?

AGENOR: Sabes o que é Clarice? É que eu estou cheio de trabalho pra fazer. Coisa que não deu pra terminar na redação do jornal e tem que estar pronto pra amanhã bem cedo. Então, desculpe (se levanta e dá um beijo no rosto de Clarice), mas eu tenho que trabalhar a noite toda, tá (sentasse novamente na máquina e volta a datilografar).

CLARICE: Sabes aquele sujeito que vive me seguindo, me dizendo aqueles versinhos, de quem eu te falei, sabes?

AGENOR: (indiferente) Sei.

CLARICE: Me abordou na rua novamente hoje, com os mesmos gracejos.

AGENOR: (atento mais ao trabalho do que à mulher) Tá bom, Clarice, fazes o seguinte. Dá próxima vez que esse sujeito aparecer, aproveitas e vê se ele quer, também, ajudar a pagar pelas despesas que tu fazes, comprando tudo o que verdes pela frente.

CLARICE: (ofendida) Ai Agenor, isso é coisa de se pensar num momento desses. Cadê a sua reação de macho? O sujeito tá dando em cima de mim e você ta aí, preocupado é com o pagamento das contas. (chorosa) Pelo visto, não tens mais um pingo de ciúme de mim. (gritando) Pelo visto, tu não me amas mais, seu “bundão”! (e, nervosa, se retira para seu quarto).

AGENOR: (Para um instante de datilografar, balança a cabeça e, em seguida, retoma seu trabalho).


CENA IV:

(salão de beleza, onde Clarice e Dalila cuidam da beleza - é claro)

DALILA: Que cara é essa amiga? Até parece que não dormiste a noite!

CLARICE: E não dormi mesmo. Sequer preguei o olho!

DALILA: Por quê, menina? Vais me dizer que ainda é por causa daquela estória da falta de ciúme do teu marido por ti?

CLARICE: É por isso mesmo. E dessa vez ele passou dos limites!

DALILA: Lá vens tu de novo, com essa ladainha!

CLARICE: Acreditas, Dalila, que o Agenor me mandou perguntar àquele sujeito que me corteja...

DALILA: Sei, o tal do Durval.

CLARICE: Isso. Se o mesmo quer ajudar a pagar pelas compras que eu faço!

DALILA: Xiii, mais um futuro falido.

CLARICE: Não tô brincando, Dalila! Ah, mas dessa vez basta, o Agenor vai ver só. Vou aprontar uma que ele vai se arrepender amargamente por não cuidar da mulher que tem!

DALILA: No que estas pensando, Clarice?

CLARICE: Ah, tu saberás Dalila, tu saberás.


CENA V:

(casa de Clarice e Agenor. Agenor chega em casa, ao retornar do trabalho e encontra, sobre a máquina de escrever, um bilhete de Clarice)

AGENOR: (lê o bilhete de clarice) “Agenor. Aceitei o convite daquele homem que vive a me cortejar e fui para a casa dele, que fica próxima à nossa casa. Não quis te dizer antes, mas este meu cortejador é o teu colega de trabalho, o Durval. Me desculpe, mas não sou mulher que aceita ser tratada com a tamanha indiferença que demonstras por mim. Clarice”.

AGENOR: (furioso) Miserável. Depois de toda a minha dedicação, de todo o meu amor, me apunha-la pelas costas! Mas isso não vai ficar assim! (gritando) Isso não vai ficar assim! (e sai em direção à casa de Durval).


CENA VI:

(casa de Durval. Clarice e Durval estão sentados no sofá da sala, quando Agenor adentra o local)

AGENOR: (raivoso) Então, é mesmo tudo verdade!

CLARICE: Agenor? Tu vieste!

DURVAL: Não é o que estás pensando!

AGENOR: Não? Não é o que eu estou pensando? É o que então?

CLARICE: (indo na direção de Agenor) Meu amor, eu posso explicar!

AGENOR: Não quero saber das tuas explicações!

CLARICE: Tudo não passou de um plano meu, para saber se, na verdade, ainda sentias ciúme de mim! E vindo aqui, demonstrastes que ainda se importa comigo! Que tu me amas! (tenta abraçar Agenor que se esquiva e a empurra).

AGENOR: Eu não estou decepcionado contigo, Clarice. Mas sim com este traíra do Durval!

CLARICE: Mas, como assim?

AGENOR: Sim, com este ingrato. Que depois deu ter dado a ele todo o meu amor, me traiu pelas costas!

DURVAL: (irritado e se aproximando de Agenor) Depois de teres me dado todo o teu amor uma pinóia! Quem entregou o coração inteiro pra ti fui eu! Crente nas tuas promessas de que largarias esta sirigaita (aponta para Clarice), para ficares somente comigo! Seu mentiroso! Foi por isso que resolvi seduzir a tua mulher. Só pra tu sentires o gosto do que é viver assim, com os restos, (gritando) com os restos!

AGENOR: Eu te disse que não era tão simples. Mas que, assim que fosse possível, eu a abandonaria. Pra que pudéssemos, finalmente, vivermos juntos nosso amor. Só tu e eu!

(Clarice, nesse instante, chocada de surpresa e desgosto, chora e retira-se de cena).

DURVAL: Chega, não quero mais ouvir as tuas promessas vãs! Já me vinguei de ti! Seu corno!

AGENOR: (dá um tapa no rosto de Durval) Eu deveria é te matar!

DURVAL: Então matas, se tu tens coragem!

AGENOR: (saca um revólver e aponta, nervoso, para Durval) Não posso. Porque eu te amo!

(Durval abraça Agenor pelas costas)


FIM

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